Tatiana Salem Levy
Fronteiras do passado
02-11-2013

Eu estava sentada no sofá quando percebi meu pai me olhando de forma enviesada, como se descobrisse em mim algo que jamais tinha visto antes. Perguntei se estava tudo bem, e ele me pediu: espera um minuto. Sumiu pelo corredor escuro da casa onde vive até hoje e voltou com uma enciclopédia nas mãos. Estendeu-me o volume pesado, aberto na página que queria me mostrar: é a sua cara. Olhei para o retrato de Spinoza e nem hesitei: claro que não! No auge dos meus doze anos, eu nunca concordaria com tamanho disparate. Como poderia parecer com aquele senhor narigudo, os olhos cavados e o cabelo que se assemelhava a uma peruca?

Poucos anos depois, descobri quem era o tal homem, para, em seguida, me tornar sua leitora. Aí não me importava se ele era bonito ou não, eu adorava repetir que, sim, eu era igual a Baruch Spinoza.

Com o tempo, entendi que a observação do meu pai tinha fundamento: Spinoza e eu tínhamos a mesma origem, ambos descendentes de judeus portugueses fugidos da Inquisição. A família dele havia se estabelecido em Amsterdam. A minha, em Esmirna, onde o pai da minha mãe e o do meu pai compartilhavam a mesma casa. Eram grandes amigos, mas emigraram em épocas distintas e acabaram se perdendo de vista, até que seus filhos se conheceram por acaso, numa reunião de militantes de esquerda contra a ditadura militar no Brasil.

Essa história dava um romance. Não escrevi sobre ela, mas não fiquei longe. Contei, no meu primeiro livro, a história da chave de casa que os sefarditas passavam de geração em geração na esperança de voltar a Portugal.

Na família da minha mãe, não era só a chave que se transmitia. Havia também uma gravura, datada do século XVII – o mesmo de Spinoza – de um rabino da comunidade portuguesa de Amsterdam. Essa gravura foi passando de primogênito a primogênito até chegar ao meu avô.

Então a minha relação com o filósofo talvez não fosse de simples semelhança? Quem sabe meu antepassado e ele não tinham se conhecido? Quem sabe não eram amigos? Inimigos? Quem sabe não há uma história de sangue envolvendo os dois? Como e por que esse tal rabino trocou Amsterdam por Esmirna? Teria alguma coisa a ver com Spinoza?

Quase vinte anos atrás, minha mãe encontrou a mesma gravura no museu judaico de Amsterdam. Quando fiz minha primeira viagem pela Europa, antes de entrar na Universidade, ela me sugeriu: não deixe de visitar nosso antepassado. Prometi que o faria, mas, deslumbrada com os coffee shops, Van Gogh e Rembrandt, acabei deixando o museu judaico para o último dia. Só não sabia que era Yom Kippur, e o museu estava fechado. Já em Bruges, liguei à minha mãe, para lhe contar o triste desencontro.

Dois anos depois ela morreu. Meu avô também já não estava por aqui, e a história acabou se perdendo num passado distante. Agora, no exato instante em que me sento para escrever a primeira crônica para o Crossing Border, ela reaparece, nítida, fresca, como se eu ainda pudesse ouvir a voz da minha mãe: Vai lá.

Abro meu e-mail e confiro a data de chegada a Amsterdam: 13 de novembro. Escrevo à organização perguntando se concordam que eu chegue a The Hague no dia 14, quando começa o festival. Tenho um assunto para resolver por lá, alego. É que toda vez que me ponho diante do computador, alguma história do passado me assopra aos ouvidos, pedindo para ser contada, como se dissesse: Você não vai a lugar nenhum sem antes voltar.

Alle verhalen van Tatiana Salem Levy
O fim, o começo
30-11-13

A lápide de Spinoza está no terreno de uma igreja em frente ao nosso hotel. O único ruído nessa manhã escura é o dos nossos passos sobre as folhas de outono que cobrem o jardim. Taco me acordou antes das seis para visitar com ele e Lucy o túmulo do filósofo. Seu nome, Benedicti Spinoza, surge entre o vermelho e o amarelo das folhas, como se alguém tivesse levantado mais cedo do que nós e varrido a superfície do mármore.

O sono é tanto que demoro a entender a mudança: Baruch virou Benedicti? Spinoza se tornou católico depois de banido do judaísmo? Por que diabos está enterrado numa igreja? Olho ao meu redor e não vejo outro túmulo por ali. Convertido e respeitado?

Incrível ele estar tão perto do hotel, comenta Lucy.

Faz tempo, cheguei à conclusão de que há certa dose de bruxaria no ato de escrever. Toda vez que começo um texto, eventos misteriosos me levam para perto do seu enredo, como se o mundo real conspirasse a favor do imaginário. Não é diferente desta vez. Desde que sentei para pensar na primeira crônica, tudo me aproxima de Spinoza e de Solomo Salem. Tudo, de alguma forma, me leva para o passado.

Na época em que comecei a escrever meu segundo romance, que se passa em parte na Córsega, eu também fazia um pós-doutorado sobre W.G. Sebald, e quase entrei em delírio quando, passeando por uma livraria em Paris, descobri um livro do autor alemão justamente sobre… a Córsega. Parecia irreal demais para ser verdade, uma encomenda pessoal. E agora, diante de Spinoza, volto a pensar em Sebald: foi ele quem me fez descobrir a cidade para onde vamos quando o dia nascer, num ônibus repleto de músicos, escritores e tradutores.

Antes de ler Austerlitz, a Antuérpia era para mim apenas um nome vazio de significado. Foi esse romance que me fez ir em busca de mais informações sobre a cidade, sua fundação, seus habitantes, sua importância comercial. Mais do que isso, a Antuérpia passou a ocupar um lugar emotivo na minha vida. Afinal, é a cidade onde o narrador do romance de Sebald encontrou Austerlitz pela primeira vez, na estação ferroviária, à espera de um trem que o levasse para longe de uma aflição sem nome. Uma aflição cujo sentido ele só entenderia tempos depois: aos 5 anos de idade, Austerlitz foi mandado de trem para a Inglaterra e entregue a seus pais adotivos, para escapar do nazismo. Antes de conhecer a sua história, o personagem vagava por estações de trem, sem saber por quê.

O passado tem dessas coisas: não-ditos que nos rondam, que insistem em se fazer presentes de alguma forma misteriosa. Fantasmas que nos aterrorizam com o intuito de nos levar adiante. Primeiro, o susto. Em seguida, as perguntas e, com elas, o desejo de esgarçar fronteiras, atravessar limites, ir em busca do desconhecido. E, com a inquietação, a própria escrita, a busca pelos significados, a estrada que às vezes desemboca na morada esperada, e outras tantas bifurca os caminhos, engana, desvia, sem a certeza de uma resposta. Uma aventura sem fronteiras, que tem na sua liberdade o prazer e a dor de sua própria existência.

*

            De volta a casa, não posso dizer que tenha o romance pronto. Nunca escrevi um livro em menos de dois, três anos. Leva tempo, uma história, para amadurecer. Nem sei se o levarei mesmo a cabo. Mas, ainda no aeroporto, enquanto aguardava a hora da partida, uma certeza se revelava no meu sorriso solitário: estava deixando a Holanda com mais perguntas do que quando cheguei, e, sobretudo, com mais entusiasmo, certa de que havia cruzado fronteiras e vivido experiências inesquecíveis do lado de lá.

17-11-13

Do lado de fora, está muito frio. O nevoeiro cobriu os prédios de Haia e a chuva cai fina. Dia perfeito para ficar no quarto do hotel lendo o novo romance de Juan Pablo Villalobos. Mas a verdade é que me comprometi a entregar uma crônica por dia e se não for ao encontro de Eduardo, o especialista em Inquisição, não terei material de escrita. Não sou propriamente uma fabuladora. Sem experiência, não escrevo. Portanto, se não quero um texto inteiro sobre o inovador gesto de ler um livro num quarto de hotel, tenho que encarar a garoa e o frio, os piores inimigos de quem cresceu nos trópicos.

Sem guarda-chuva nem capuz, saio em busca da estação de trem. O Google me diz que são nove minutos até lá, mas levo dezesseis. Se eu não me perdesse, seria outra pessoa. Confiro a plataforma para onde devo me dirigir e, uma vez no vagão, volto a me sentir em casa. Se eu pudesse, passava a vida num trem, em silêncio, observando o mundo do outro lado da janela e os passageiros que sobem e descem. Entre Haia e Amsterdam o solo é plano; o horizonte, esticado.

Uma viagem de trem vale mais do que uma sessão de análise. Visito a minha infância, imagino dias melhores, lembro os meus mortos, conto a eles o que não conto a ninguém. O tempo lógico se torna o tempo entre duas cidades, que escorre numa velocidade inesperada.

O telefone estava no silencioso, e só quando chego a Amsterdam descubro a mensagem de Eduardo: está quinze minutos atrasado. Aproveito para tomar um café e comprar um exemplar do Le Monde. Quinze minutos depois, outra mensagem: será que você poderia escolher um restaurante e me esperar lá? Começo a ficar inquieta, na minha cabeça tropical, europeus nunca atrasam. Mas a esperança ainda está ao meu lado, Eduardo vai aparecer e contar tudo o que sabe sobre Salom Salem, detalhe por detalhe. Vou voltar para casa com um romance quase pronto embaixo dos braços.

Em Amsterdam também chove, e é por isso que entro no primeiro lugar que encontro, The Doors, um desses típicos bares para enganar turista. No Iphone, escuto os Villagers, que me conquistaram no show de ontem. O disco tem o certeiro nome de Awayland. É nela mesma que moro, nessa terra longínqua, fora de casa.

Envio um sms para Eduardo com todas as indicações e peço um chá de limão com gengibre. Em seguida, uma torta de maçã. Quando olho no celular novamente, a hora ficou para trás. Nenhuma mensagem de Eduardo nos quarenta e cinco minutos em que estou no bar. Decido telefonar, mas seu aparelho está desligado, ou fora de área. Será que ficou sem bateria?

O problema da espera é ser uma espiral sem fim. Só paramos de esperar quando o outro chega. Se o outro não chega, não paramos nunca. Fica sempre a dúvida: se eu partir agora, pode ser que ele surja. Decido aguentar mais quinze minutos. Depois mais quinze e mais quinze e mais quinze. Às cinco da tarde não tenho solução senão me conformar com a evidência do fato e pegar um trem de volta a Haia. Não posso correr o risco de perder a leitura desta noite.

No caminho de retorno, a suposta sessão de análise se transforma numa luta imaginária em que xingo Eduardo de todos os nomes possíveis. Fiz de tudo por uma história, e ela não existiu. Me deixou sem crônica, o maldito. Fui em busca da melhor história e fiquei sem nenhuma.

Aos poucos vou me conformando com o dia perdido, me convencendo de que o passado é uma terra que deve permanecer distante. Basta uma olhadela rápida de vez em quando, e depois é seguir adiante. Quando estou pronta, Taco, o tradutor, bate à minha porta: estava vagando por Haia quando se deparou com a lápide de Spinoza. Você não pode ir embora sem ir até lá, ele afirma, com a expressão ao mesmo tempo entusiasmada e lívida, como se tivesse visto o próprio Spinoza, e não o seu túmulo.

 

Tudo é relativo
16-11-13

Acordo no meio de um pesadelo: meu pai foi condenado à prisão e me avisa que vai se matar. Tento convencê-lo do contrário, mas sua posição se mantém firme.

Ainda estou zonza por causa do jet leg e, embora eu me levante, meu pensamento continua vagueando pelo reino das imagens aleatórias. A voz do meu pai vai e vem. Seria o sonho uma vingança por ele ter me comparado a Spinoza? Ou seria a culpa me rondando por eu ter discordado dele publicamente?

No corredor, encontro Daphne, a bela escritora que não gosta de sair de casa. Não sei como agir na sua presença. Devo permanecer muda? Afastar-me para não atrapalhar sua solidão? Afinal, ela explicitou na primeira crônica que não gosta de interagir socialmente. Mas é ela própria quem puxa assunto, afirmando sem rodeios que pareço cansada. Será que também desvenda meu pesadelo? Terá descoberto que prendi e suicidei meu pai?

Enquanto Daphne come um pão com salame e eu um iogurte com granola, conversamos sobre nossas vidas, encontramos coincidências e diferenças. Então, ela anuncia que quer visitar o museu da prisão, conhecer suas histórias de conspirações políticas, punições dos prisioneiros, torturas. No mesmo instante, a lembrança irrompe: a última coisa que li antes de me deitar foi um artigo sobre a condenação dos envolvidos num grande esquema de corrupção no governo brasileiro. Graças a Daphne está tudo explicado: não tem nada a ver com culpa, nem vingança, muito menos com Spinoza.

*

            Sempre que encontro alguém do leste europeu fico pensando na relatividade das coisas. Enquanto no Brasil das décadas de 60 e 70 o comunismo era sinônimo de liberdade – ao menos de libertação da pavorosa ditadura militar –, na Eslováquia, de onde veio a Monika, o comunismo configurava a própria ditadura. Liberdade era alcançar o aeroporto e atravessar a fronteira.

*

            Muitos desses políticos condenados à prisão participaram da resistência no Brasil, idealizaram e lutaram por um mundo melhor. Meu pai também, e foi por isso que nasci em Lisboa, no exílio. De volta ao quarto, depois da conversa com Daphne, respiro aliviada pensando que, faz tempo, meu pai largou a atividade política. A prisão é um medo sem fundamento, que só aparece nos sonhos.

*

            Pego um mapa da cidade na recepção, peço dicas de lugares para visitar, espero uma alma gentil traçar o passeio perfeito e, ao ganhar a rua, esqueço o mapa no bolso do casaco, me ponho a flanar sem nenhum compromisso, sem reparar nos nomes das ruas, certa de que no fim não saberei voltar ao hotel.

É o acaso que me leva até o museu da prisão. Lá dentro, passo o olhar por objetos de tortura, cadeiras de julgamento, textos explicando o método de punição de séculos atrás: olho por olho, dente por dente. No geral, o museu não tem graça, mas termina por atingir um mérito: me leva ao quadro “Menino mordido por um lagarto”, de Caravaggio, exposto na galeria ao lado. Se há pintor no mundo que me faz andar quilômetros por um único quadro é ele.

*

Uma vez em frente ao computador me dou conta de que esqueci Spinoza, não fui em busca de seus vestígios. E penso que viajar, assim como escrever, é isso: esquecer algumas coisas, para descobrir outras.

*

Acabo de receber um e-mail do meu amigo português de Amsterdam, dizendo que hoje conheceu um professor de literatura especialista em Inquisição. Sabe tudo sobre os judeus dos séculos XVII e XVIII na Holanda e tem um trabalho sobre os rabinos que vieram de outros cantos do mundo para visitar o país. Sugere um encontro amanhã à tarde. Vai me dizer tudo o que sabe a respeito de Salom Salem.

Um livro, que livro?
15-11-13

As condições são adversas: já passa das dez da noite, e nunca trabalho depois das sete. Preciso da crônica pronta amanhã de manhã e ainda não sei por onde começar. Queria escrever sobre Haia e não conheço nada além do hotel, o hall de um teatro e um restaurante indonésio. Poderia falar dos meus tradutores, dos outros cronistas ou dos organizadores do festival, mas foram simpáticos demais para se tornarem personagens. Só me resta, então, fazer o que deve parecer óbvio para quem leu a primeira crônica: contar o que aconteceu em Amsterdam.

*

É uma da tarde quando saio da estação de trem e me deparo com a cidade sob um sol suave, de outono. Giro a cabeça de um lado a outro e logo me lembro dos pequenos prédios, das bicicletas, das pessoas exageradamente altas. Arrastando a mala, me dirijo à casa de um amigo português que vai me abrigar por uma noite e, no caminho, ganho a certeza de que poderia viver aqui.

Não tenho muito tempo, por isso como uma salada rápida e pego um táxi: para o museu judaico, por favor. Quando entrego o bilhete ao senhor da entrada, ele me adverte: melhor ir para a sinagoga portuguesa antes, fecha às quatro. Para ser sincera, não faço questão de tal visita, mas me sinto constrangida diante de seu conselho e termino por dar meia volta. Não me arrependo.

Meia hora depois, assim que entro no museu, uma senhora se aproxima para perguntar se posso ajudar com uma pesquisa. Quer saber de onde vim, quantos anos tenho e por que estou lá. Hesito entre dizer a verdade ou dar uma resposta rápida e banal, para não postergar ainda mais o encontro com meu antepassado. Opto pela primeira alternativa, e vejo seus olhos encherem d’água. Esperava uma resposta similar a todas as outras e de repente se vê diante de uma história com corpo, cheiro, realidade.

Ela me explica a organização do museu e vou direto para o segundo andar, onde se localiza o material do século XVI ao XIX. Observo os quadros e as gravuras, além de ler alguns textos com calma, porque no fundo, apesar da ansiedade, o que quero é mesmo adiar o esperado momento. Muitas vezes a expectativa vale mais do que o acontecimento. Na fantasia, há pouco espaço para a frustração.

Numa mesa de vidro, lá está ele, igualzinho, a mesma gravura herdada por meu avô, com a mesma barba longa, o mesmo pano sobre o cabelo em forma de torre. Salom Salem nasceu e morreu na Turquia – ao contrário do que eu pensava – e veio em 1652 para Amsterdam com o objetivo de imprimir seu livro. Por essa eu não esperava: um livro? Que livro?

Desço as escadas novamente e retomo a conversa com a senhora do museu, que me aconselha ir ao centro de informações. Sou recebida por um rapaz muito simpático que procura nos arquivos qualquer informação sobre Salom. Descobre apenas que era rabino de Adrianopolis (mais tarde, o Google me revelaria uma cidade homônima no sul do Brasil). Decepcionado com a escassez de material, ele me passa dois números de telefone e acrescenta: Você foi à sinagoga portuguesa? Eles têm muito material da época. Se você pesquisar, talvez encontre um exemplar desse livro. Se é que o livro foi impresso…

Olho no relógio, são quatro e meia, a sinagoga já fechou. Amanhã sigo para Haia e não tenho nenhum plano de voltar a Amsterdam. É sempre assim: vou em busca de respostas e retorno com novas perguntas. Num instante, as possibilidade se multiplicam. Quando isso acontece é o primeiro sinal de um romance por vir. Sim, um romance, eu penso. Sair da Turquia para a Holanda em pleno século XVII, atravessar fronteiras, fazer uma longa viagem para imprimir um livro e marcar o rosto numa gravura que, muitos anos depois, iria parar numa casa no Rio de Janeiro – a trama me parece interessante. Sem falar, é claro, na hipótese de Salom Salem ter conhecido Spinoza.

*

 E por falar nele, também estive frente a frente com um retrato seu. Meu pai que me desculpe, mas não somos nada parecidos.

*

 Acabo de descobrir que Spinoza morreu em Haia. Quem sabe amanhã não deambulo pela cidade em busca de seus rastros?

Fronteiras do passado
02-11-13

Eu estava sentada no sofá quando percebi meu pai me olhando de forma enviesada, como se descobrisse em mim algo que jamais tinha visto antes. Perguntei se estava tudo bem, e ele me pediu: espera um minuto. Sumiu pelo corredor escuro da casa onde vive até hoje e voltou com uma enciclopédia nas mãos. Estendeu-me o volume pesado, aberto na página que queria me mostrar: é a sua cara. Olhei para o retrato de Spinoza e nem hesitei: claro que não! No auge dos meus doze anos, eu nunca concordaria com tamanho disparate. Como poderia parecer com aquele senhor narigudo, os olhos cavados e o cabelo que se assemelhava a uma peruca?

Poucos anos depois, descobri quem era o tal homem, para, em seguida, me tornar sua leitora. Aí não me importava se ele era bonito ou não, eu adorava repetir que, sim, eu era igual a Baruch Spinoza.

Com o tempo, entendi que a observação do meu pai tinha fundamento: Spinoza e eu tínhamos a mesma origem, ambos descendentes de judeus portugueses fugidos da Inquisição. A família dele havia se estabelecido em Amsterdam. A minha, em Esmirna, onde o pai da minha mãe e o do meu pai compartilhavam a mesma casa. Eram grandes amigos, mas emigraram em épocas distintas e acabaram se perdendo de vista, até que seus filhos se conheceram por acaso, numa reunião de militantes de esquerda contra a ditadura militar no Brasil.

Essa história dava um romance. Não escrevi sobre ela, mas não fiquei longe. Contei, no meu primeiro livro, a história da chave de casa que os sefarditas passavam de geração em geração na esperança de voltar a Portugal.

Na família da minha mãe, não era só a chave que se transmitia. Havia também uma gravura, datada do século XVII – o mesmo de Spinoza – de um rabino da comunidade portuguesa de Amsterdam. Essa gravura foi passando de primogênito a primogênito até chegar ao meu avô.

Então a minha relação com o filósofo talvez não fosse de simples semelhança? Quem sabe meu antepassado e ele não tinham se conhecido? Quem sabe não eram amigos? Inimigos? Quem sabe não há uma história de sangue envolvendo os dois? Como e por que esse tal rabino trocou Amsterdam por Esmirna? Teria alguma coisa a ver com Spinoza?

Quase vinte anos atrás, minha mãe encontrou a mesma gravura no museu judaico de Amsterdam. Quando fiz minha primeira viagem pela Europa, antes de entrar na Universidade, ela me sugeriu: não deixe de visitar nosso antepassado. Prometi que o faria, mas, deslumbrada com os coffee shops, Van Gogh e Rembrandt, acabei deixando o museu judaico para o último dia. Só não sabia que era Yom Kippur, e o museu estava fechado. Já em Bruges, liguei à minha mãe, para lhe contar o triste desencontro.

Dois anos depois ela morreu. Meu avô também já não estava por aqui, e a história acabou se perdendo num passado distante. Agora, no exato instante em que me sento para escrever a primeira crônica para o Crossing Border, ela reaparece, nítida, fresca, como se eu ainda pudesse ouvir a voz da minha mãe: Vai lá.

Abro meu e-mail e confiro a data de chegada a Amsterdam: 13 de novembro. Escrevo à organização perguntando se concordam que eu chegue a The Hague no dia 14, quando começa o festival. Tenho um assunto para resolver por lá, alego. É que toda vez que me ponho diante do computador, alguma história do passado me assopra aos ouvidos, pedindo para ser contada, como se dissesse: Você não vai a lugar nenhum sem antes voltar.